18 de Março – Morte do Fundador

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“Tenho setenta anos!”

Pe. Venturini já tinha boa aparência apesar dos seus setenta anos. Na realidade o trabalho duro e as graves responsabilidades o tinham enfraquecido profundamente.

No dia 07 de maio de 1956 escrevia no Diário:

“Hoje completo o septuagésimo ano de vida! Graças a Deus e tende piedade! Jesus, passaram-se 70 anos: logo terminará e não correrei mais perigo de abandonar-te. Tenha-me, pois unido, estreitado, ao teu Coração Divino, não permitas, a qualquer custo, que de Ti eu me distancie.

Logo serei teu para sempre, pela eternidade! Minha Mãe dileta, que das mãos de minha mãe me acolheste recém-nascido, não me abandones! agora que estou velho e vou perdendo cada dia mais as energias enquanto me aproximo da tumba; não me abandones! enquanto não me vires salvo na eternidade beata”.

O multiplicar-se dos incômodos lhe lembrava, ainda mais que antes, o pensamento da Pátria Celeste. Era um pensamento, que não o abandonava nunca, e o recomendava também aos Filhos. Ao despedi-los, depois de um encontro, dizia: “Seja bom e vá ao Paraíso!”.

A morte dos amigos e dos benfeitores lhe servia de profícua meditação.

Sobretudo notava as mortes repentinas dos sacerdotes. “Anuncio-lhe a morte de um outro caríssimo amigo, Mons. Moneta Luigi… falecido de repente. Estas mortes repentinas me impressionam e deveriam manter-me preparado e disposto a receber de grande coração o chamado do Esposo Divino”.

Vivia desapegado do mundo. “O mundo é de Deus. Ele é nosso Pai, e onde Ele nos chamou nós fomos; e onde nos chamar, iremos, mesmo que fosse aos últimos confins da terra. Quanto mais se é pequeno e pobre, mais cedo se fazem as malas e mais cedo se corre aonde o bom Deus Pai nos quer”.

Sentia-se Fundador e pai de uma Congregação. Mas isso não o preocupava, porque tudo confiava ao Coração de Jesus. Aliás, rezava:

“Tire da tua vinha o servo inútil, que desperdiça os teus tesouros, que deixa sem fruto os teus talentos: não me lamentaria por isso, ó Senhor, aliás, Te darei glória porque Tu fazes bem todas as coisas… Mesmo se só um membro ficasse, que ele creia firmemente que, se Tu o queres, podes infundir na Obra nova vida, novas forças e fazê-la prosperar. Mas se Tu dispusesses diferentemente, pelos teus imperscrutáveis desígnios, que este religioso permanecido só morra na congregação, ou somente na obediência de quem pode mandar nele em nome de Deus, deixe-a perecer. Porém, seja ela viva, seja morta, será sempre tua, ó Jesus!” (Testamento)

No dia 16 de março de 1954, (note-se a data) na Casa São José de Intra, teve, como costumava dizer depois, “uma ameaça de enfarte”.

Os religiosos tiveram sérias apreensões nisso. Rezaram dia e noite, oferecendo muitos “pequenos sacrifícios”. O Senhor os atendeu, e o mal se rendeu. Ele comentava: “Penso que tenha sido um forte toque do Bom Deus, para que me conscientizasse: um aviso para manter-me preparado…” (Diário)

“Procuro manter-me preparado ao chamado divino, porque certos avisos têm seu significado. Se sempre pudesse dizer: Vem, Senhor Jesus! Mas… erva daninha nunca morre!”

Em 1955 temia que a “ameaça” se repetisse.

“Será aquilo que o Bom Deus quiser. Disponha desta pobre carcaça, já velha, segundo o beneplácito dEle: estarei contente com tudo”.

Nos últimos meses, o impressionava fortemente o progredir da diabete.

“A diabete me atribula, mas procuro não ligar para isso e me movo como posso pelos caros sacerdotes. Que o Senhor e a Mãe querida me ajudem! Algumas vezes temo morrer durante a viagem, como meu pai. Faça o Senhor como melhor lhe apraz, contanto que o sirva com fidelidade até o último minuto”.

 

1Nota: Este último capítulo foi escrito por Pe. Pio Milpacher, para completar, com algumas notícias, esta edição portuguesa

Até o fim

 

O trabalho se multiplicava e a saúde decaía. Os religiosos queriam que se cuidasse. Ele, brincando, escrevia a uma amigada Obra: “Que pena ficar velhos com o trabalho que há ao redor! Bendito Jesus! Porém, se me chamas, nem digo vou, vou mesmo ao paraíso para junto de ti. porém, seja feita a tua vontade!”

O início do ano de 1957 o encontrou ocupadíssimo. Queria muito ir à região das Apúlias para ali fazer conhecer e desenvolver a União Apostólica. Os convites dos bispos dali e do clero local se multiplicavam. Dias cansativos apareciam no horizonte.

Os seus religiosos insistiam para que descansasse. Ele respondia: “Descansaremos no Paraíso!” E decidiu dirigir-se a Molfetta.

Somente dez dias antes tinha tido uma forte crise do seu mal.

Pode ser interessante um rápido aceno de crônica daqueles últimos dias de ministério.

13 de março. Santa Missa e meditação aos clérigos do seminário regional de Molfetta. Imediata partida para Bitonto.

Em Bitonto, às dez horas, transmitiu os pontos da meditação aos sacerdotes, falando por além de quarenta e cinco minutos. “Teriam ficado ali a escutá-lo quem sabe quanto tempo. Os sacerdotes estavam tão atentos. Parecia que o quisessem devorar com os olhos!” Assim escrevia o cronista.

Segue a reunião para a União Apostólica, que se prolonga até às 13 horas.

Na tarde volta a Molfetta. Está cansado. O acompanhador lhe dá o braço. Ele aceita e comenta: “Além dos pés, é o coração que não funciona mais, especialmente para subir!”

Tendo voltado ao seminário, confessou: ”Sinto-me um pouco cansado. Dizem que me esquento demais quando falo, que coloco nisso ímpeto demais. Mas o que devo fazer?… É a minha vocação! É questão de vocação”. E declara que, falando aos sacerdotes, sentia em si algo de indescritível, não sentia nenhum cansaço. Só ia senti-lo depois.

Logo que voltou, lhe disseram que o bispo o esperava. Levanta-se e vai até ao Prelado. O colóquio durou longamente. Quando parecia que o Padre estivesse para se despedir, o Bispo voltou ao escritório, continuando por um bom tempo ainda a conversa.

Ei-lo, depois de novo, no seminário. Poderá, finalmente, estar um pouco quieto, terminar as orações do Breviário e colocar em dia a Adoração? Não! Espera-o uma série interminável de encontros e colóquios reservados por parte dos alunos do último ano. Às 19:30h querem que fale a todos os diáconos. Aqueles bons jovens estavam entusiasmados e não queriam mais se separar do Padre. Todos lhe estavam ao redor e tinham alguma coisa a lhe perguntar, mesmo quando já se tinha levantado, no momento em que a campainha deu o sinal para o jantar.

São detalhes que comovem: neste desgastante doar-se, manifesta-se admiravelmente a sua paternidade sacerdotal.

 

Entre os filhos de Loreto

 

14 de março. Voltando das Apúlias, parou em Loreto. Estava cansado, mas contente. Escutou os religiosos, falou com os sacerdotes hóspedes, encontrou as irmãs, achou modo de escutar paternalmente as monjas do vizinho Carmelo. E assim passou o dia 15 de março.

Enquanto isso, tinha recebido uma carta de Trento com a qual se pedia a ele que apressasse a volta. Havia necessidade dele para tarefas relacionadas às construções em andamento.

Antes de partir quis despedir-se da querida Nossa Senhora de Loreto. Reservou lugar para a celebração na Santa Casa. Antes quis se confessar com o superior de “Maris Stella”. Era um jovem padre, que ele tinha visto crescer ao lado dele desde 1927. Foi a sua última confissão.

No dia seguinte, 16 de março, bem cedinho, celebrou na Santa Casa, que lhe era tão querida porque lhe lembrava o Fiat de Nossa Senhora e o início do Sacerdócio de Jesus.

No final da ágape deu adeus a todos, porque partiria com o trem das 14 horas. Na escadaria, saudando o mais velho dos sacerdotes, de 86 anos, lhe disse amigavelmente: “Se vou morrer primeiro, reze por mim”. O outro logo interrompeu: “Vou eu morrer antes, sou mais velho. O senhor poderia, mas eu devo morrer antes…” E o Padre de volta: “Não, não; eu morrerei antes. Reze por mim!”.

Separando-se dos seus religiosos, um lhe perguntou quando voltaria a Loreto. “É a última vez!”, respondeu sério e comovido. Abraçou todos com grande efusão.

À noite já estava em Trento. Notou-se nele certo cansaço, mas também muita afabilidade e jovialidade, numa transparência singular e misteriosa. Manifestou muitas vezes grande satisfação pelo bom êxito dos dois encontros realizados nas Apúlias. A um coirmão confiou: “Há tanta coisa a fazer pelos sacerdotes. Não se pode ir por toda parte; mas com a oração chegamos a todo lugar, e sem nos cansarmos tanto”.

Um noviço lhe tomou as malas. Ele lhe pediu que as colocasse no lugar, prontas para a próxima viagem. Mas depois, quase se corrigindo, exclamou: “Ah! A próxima viagem será para a eternidade”.

 

Os últimos dias

 

Os dias 17 e 18 de março transcorreram normais. O Padre aparentava cansaço e palidez, estava mais sério e recolhido, mas ao mesmo tempo atencioso, jovial e ativíssimo. Seguiu o horário da comunidade até o último momento. Teve bastante correspondência para adiantar. Ocupou-se de tudo e de todos, especialmente dos definitivos detalhes da nova capela das Irmãs em honra de Maria Mãe do Sacerdote, que se estava concluindo. Tinha preparado um elenco dos problemas a serem resolvidos, deixando espaço livre para outros, sem pensar que o mais próximo e urgente era mesmo aquele que ele estava para causar com a sua partida!

O dia 18 de março ficará memorável na história do Instituto.

De manhã, como de costume, celebrou a Santa Missa na sua capela particular. A última Missa!

Teve vários colóquios, marcados com ternura paterna e tocante, com diversos religiosos.

A manhã transcorreu em encontros. Uma sugestão a um, uma boa palavra ao outro, sempre com aquele tom sobrenatural que lhe era costumeiro: “Fazei-vos santos; o resto não tem importância” – disse a um religioso. “Coragem, seja alegre, te recomendo muito: seja alegre, sempre alegre” – repetiu a um estudante.

Também naquele dia havia urgência de pagar uma dívida consistente a um credor, que esperava no parlatório. Alguém lhe fez observar que não tinham dinheiro suficiente e era preciso pedir um empréstimo. O padre abriu os braços sorrindo, em ato de fé e de exortação, e comentou com tom inexprimível: “Oh, mas o Pai Celeste tem o dinheiro! Basta pedir-lhe com confiança e fazê-lo contente. Então ele nos atenderá, mas sempre tempore opportuno (no tempo certo). O dinheiro passa; mas o mérito de ter pedido fica por toda a eternidade”. Era a sua linguagem habitual.

Na metade da manhã desceu à capelinha e fez uma visita ao Santíssimo Sacramento. Era o seu propósito, feito no início da Santa Quaresma, que tinha recomendado a toda a comunidade. Durante o recreio, depois do almoço, se apresentou na varanda da casa e iniciou um colóquio vivaz com os aspirantes menores, que brincavam em baixo, no quintal, fazendo barulho. À sua saudação, todos bateram palmas. Respondeu batendo palmas também ele, no mesmo modo dos meninos.

Na tarde fez a sua cotidiana adoração. Logo se sentou no banco, algo pouco comum. Rezava e meditava usando o livro: “Intimidade divina”. No final da adoração, cantou quase sozinho com voz alta e fluente: “Adoremus in aeternum Sanctissimum Sacramentum!” (Adoremos para sempre o santíssimo Sacramento).

Na saída, abençoou a superiora e algumas Irmãs que saíam da adoração. Foi a última vez. Durante o Santo Rosário na Igreja esteve de joelho, mas mantinha a cabeça curva, como fazia quando estava cansado. No final da celebração cantou também ele o refrão do canto a São José, que dizia: “Nas angústias da última hora  vem, Consolador; contigo, Jesus e a Virgem  nós expiraremos serenos”.

De noite, um seminarista, pequeno redator chefe do “Jornal de Maria”, mural mensal da Congregação Mariana, lhe apresentou o número preparado para a iminente festa de São José. No centro se sobressaía uma reprodução em cores do triunfo do Santo, do professor Barberis. O Padre a observou e a beijou repetidamente, extasiado. Sentiu-se tocado por um artigo à margem. Tratava-se do texto muito conhecido: “Viajantes para o Céu”, que dá o horário, o preço e os avisos para aqueles que partem para a eternidade. “De que classe tu fazes parte?”, perguntou ao rapaz. Sem esperar resposta acrescentou: “Eu me contento em ficar na terceira (arrependimento e resignação) e também na quarta… (que nem era colocada)”.

Realizou ainda algumas pequenas tarefas. Escreveu uma carta aos coirmãos de Loreto, exortando-os a realizar bem o iminente Tríduo da renovação dos Santos Votos. Assinou uma carta dirigida ao cardeal da Colômbia pela Jornada de Santificação Sacerdotal de 1957.

Era vigília de São José, o seu querido Santo. Tinha dado ordem de limpar e enfeitar o oratório a Ele dedicado. Quis que se procurasse uma nova auréola para a sua estátua: “É a sua festa e a merece!”. Quando tocou o sino que chamava ao coro, desceu prontamente à capela. Rezou com os demais o ofício de São José exercendo a função de presidente da assembléia.

No refeitório observou com prazer o quadro de São José adornado. Depois do jantar passou na sala de recreação. Com alguns coirmãos, estudou o modo de dar uma veste tipográfica melhor ao Periódico da União Apostólica.

Às 21h15min foi, junto com os outros, rezar a oração da noite. Concluiu-as, como sempre, com sua bênção, dada à comunidade com voz clara e solene. Saudou a querida imagem de Nossa Senhora e se dirigiu rumo à portaria para saudar o seu querido São José. Há anos fazia aquela visitinha. Aproveitava disso para recomendar a si e os Filhinhos à proteção e custódia do caro Patrono. Naquela noite, observou-se que não foi capaz de ajoelhar-se. Ficou de pé a rezar. Viu com prazer que ao redor tinham sido colocadas flores, mas acenou ao irmão que era necessário colocar outras mais. Foi a despedida do Santo.

Tendo subido ao seu quarto, não fechou à chave, mas encostou a cadeira à porta. Contra o seu costume, trouxe o telefone interno da escrivaninha para o criado-mudo. A escrivaninha do Padre foi encontrada em perfeita ordem, como quando partia para uma longa viagem.

 

“Jesus, eu vou… estou pronto”.

 

A Casa Mãe estava imersa no silêncio quando, às 23 horas, tocou o telefone interno. Pe. Venturini com voz calma e serena chamava os seus colaboradores mais íntimos, porque se sentia mal. O ecônomo, o padre mestre dos noviços e o assistente acorreram logo. Encontraram-no plenamente em si, consciente de tudo que estava acontecendo, mas já em condições gravíssimas. Foram acordados imediatamente todos os religiosos. Espalhou-se a voz: “O Padre está morrendo! O Padre está morrendo!”.

Sentado à beira da cama, entre os braços de um coirmão, o Padre, em agonia, manifestava uma ansiedade sempre mais intensa, que o sufocava. O enfermeiro prestou os primeiros cuidados, mas em vão. O venerado Padre, pálido no rosto, que exprimia ardente sofrimento, e, também, abandono à vontade de Deus, batendo-se no coração, rezava insistentemente: “Jesus, chama-me! Jesus, eu vou! Estou pronto!” apertando seu peito, renovava atos de intensíssimo arrependimento.

Aos Filhos que, consternados e perdidos, assistiam a sua passagem, pediu perdão pelos “maus exemplos”. Depois, com tom paterno e aflito, disse: “Não vede que estou morrendo?… Dai-me a absolvição, dai-me o Óleo Santo!”. Foram-lhe administrados os últimos sacramentos.

Muitas vezes repetiu: “Confio-vos a Obra!”. Teve, neste momento, uma lembrança para os noviços e as Irmãs.

Renovou com ardor o pio exercício da União ao Sacrifício de Jesus, sugerido, segundo o seu desejo, por um dos presentes. Renovou também a oferta de si mesmo pelos sacerdotes: “Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam! (Eis que venho para fazer a tua vontade)… Pro eis!” (Por eles).

Esforçava-se repetir as jaculatórias que lhe sugeriam.

A sua voz ia se enfraquecendo. A certo ponto, não foi mais capaz de articular nenhuma sílaba. As forças o abandonaram.

Por volta das 23h:30 do dia 18 de março de 1957 consumava, sacerdote e vítima, a sua oferta. Faltava pouco para a festa de S. José

Ao lado da cama, que era agora um altar, os Filhos órfãos, choravam.

Aos dois médicos da Casa, chamados urgentemente, não restou nada mais do que constatar o óbito por violento infarto cardíaco.

O corpo venerado, revestido pelos paramentos sacerdotais, foi levado à capela interna.

 

Últimas homenagens

 

A dolorosa notícia, difundida na cidade na manhã do dia de São José, comoveu todos aqueles que conheciam o falecido.

Um dos primeiros a acorrer foi o arcebispo, Mons. Carlo de Ferrari.

Enquanto uma autêntica peregrinação de admiradores subia a Via dei Giardini, na sala do velório se elevava um sussurrado e ininterrupto coro de orações. Mas, mais do que elevar sufrágios, muitos pediam graças ao “santo”.

No dia 21 ocorreram os funerais.

A última homenagem tributada a Pe. Venturini foi celebrada com grande simplicidade: uma simplicidade que a tornou mais grandiosa e comovente.

Quando o caixão foi içado sobre o carro fúnebre, muitos rostos apareciam regados de pranto. E não eram somente os rostos dos Filhos, repentinamente órfãos.

Imenso cortejo, no qual estavam representadas todas as categorias sociais e todos os Institutos. Muito numerosos os sacerdotes.

Na igreja paroquial dos Santos Pedro e Paulo estavam à espera o Arcebispo Carlo de Ferrari e o bispo de Chioggia. Celebrou a Santa Missa cantada mons. Guido Bartolameotti vigário geral da diocese, o qual, no final do Divino Sacrifício, evocou a figura e a obra do falecido. Dom De Ferrari deu a solene absolvição.

Os salesianos, com gesto de delicada caridade fraterna, quiseram que o venerado corpo fosse “hospedado” na tumba do Instituto, na espera de sua colocação definitiva.

O falecimento do Fundador trouxe aos Filhos a sensação de uma descoberta inesperada: a universalidade da estima com que ele era considerado. Um verdadeiro plebiscito de elogios: do Sumo Pontífice Pio XII, que colocava em evidência a sua “piedade”, ao então cardeal Roncalli que prometia sufrágios reconhecidos “pela sua alma destinada à grande recompensa, pelo delicado, precioso e generoso serviço prestado ao sacerdócio católico”, como se exprimia no seu telegrama. O cardeal Wendel o proclamava um “apóstolo do Sagrado Coração e do Sacerdócio”. O cardeal prefeito da Sagrada Congregação dos Seminários elogiava a sua apostólica contribuição à formação do jovem clero. Inumeráveis bispos, prelados e sacerdotes manifestaram sua admiração pelo falecido.

Os religiosos da Congregação sacerdotal ficaram impressionados pela insistência com a qual, por parte de sacerdotes e de leigos, se recomendava a eles “continuar nas pegadas do Padre a trabalhar pela santificação do clero, a ficar fiéis ao seu programa, tão necessário e sublime, a conservar a Congregação no espírito genuíno do Fundador”.

No dia 27 de março, mo encontro da comunidade, o Padre Vigário do Instituto leu o Testamento espiritual do Padre e Fundador. Tinha sido escrito no dia 07 de março de 1947, trigésimo quinto aniversário da primeira inspiração da Obra. Tinha sido confirmado no dia 07 de março de 1953, e reconfirmado no dia 13 de janeiro de 1955, com um simples post-scriptum: “Nas tuas mãos, Senhor, confio o meu espírito. Maria, não falte ao meu lado”.

Em todas as linhas do Testamento brilha de esplêndida luz e a espiritual paternidade de Pe. Venturini.

 

O Padre vive!

 

Do dia 06 a 10 de agosto de 1957 realizou-se em Trento o terceiro Capítulo Geral da Congregação.

Foi nomeado primeiro sucessor do Fundador Padre Pietro Menotti, seu vigário e fiel colaborador por muitos anos.

Naquela ocasião, os capitulares puderam constatar quanto fosse viva a sua memória e operante seu exemplo.

Muitas pessoas manifestaram o desejo de ter suas notícias biográficas. Publicaram-se artigos nos jornais locais e nacionais, e em várias revistas eclesiásticas. Foram pedidos e realizados santinhos com notícias biográficas, pensamentos do padre e uma oração específica pela sua beatificação.

Um grande presente foi a publicação do volume “Cânticos Sacerdotais”, em que o próprio Padre revela, sem querê-lo, a profundidade da sua alma apaixonada pelo Sacerdócio.

Muitos sacerdotes começaram invocar sua intercessão. Não causa surpresa isto se pensarmos na sua promessa específica: “No Paraíso não descansarei até que houver um sacerdote para ajudar sobre a terra!”.

Não faltam nem mesmo leigos que imploram graças recorrendo à sua mediação.

No dia 20 de abril de 1961 um grande acontecimento alegrou toda a Congregação Sacerdotal; o corpo do Padre foi transportado do cemitério para a Casa Mãe.

Foi colocada no sarcófago, que a piedade dos Filhos e a devoção dos admiradores lhe quiseram oferecer, numa pequena cripta, realizado sob a igreja do Coração Sacerdotal de Jesus.

Os restos mortais de Pe. Mário Venturini agora repousam ai, num cândido sarcófago, simples e solene, situado aos pés daquele altar, onde ele tantas vezes manifestou a plenitude da sua paixão sobrenatural pelo sacerdócio.

A frieza do mármore é vivificada pelas palavras, que resumem a substância de toda sua existência humana: “Santifica-os… Por eles eu santifico a mim mesmo”.